#68 CHEGOU O INVERNO DAS RELAÇÕES HUMANAS

#68 CHEGOU O INVERNO DAS RELAÇÕES HUMANAS

Há um arrefecimento silencioso entre os humanos que nenhum boletim meteorológico regista. Chama-se inverno relacional e está a mudar a forma como nos relacionamos.

Não há mãos a medir para tantos eventos, conferências, summits e talks. Entre a iluminação cuidada, cenários dramáticos, hosts célebres e mesas redondas feitas à medida para os patrocinadores platina, gold e diamante, lançam-se temas que prometem ser reflexões surpreendes sobre o estado do mundo.

Grande parte do tempo que passamos sentados em cadeiras de auditórios, ouvimos o mesmo de sempre, dito por outras palavras. De vez em quando, há algo que é dito e nos desperta da sonolência, traz-nos a esperança da revelação, mas, na maioria dos casos, saímos com o mesmo nível de sabedoria com que entrámos. Talvez mais cansados.

O mundo dos eventos reflete o estado atual da sociedade: está também mergulhado num inverno relacional que dura há demasiado tempo. Esta expressão de Rui Marques, coordenador do Relational Lab e professor associado do ISEG, foi utilizada por David Lopes, administrador do grupo Leya, numa recente conferência a que fui. A sua intervenção despertou-me, em boa hora, da letargia provocada pelos lugares-comuns que ouvi.

Nos dias seguintes fui pesquisar. E trago-vos algumas ideias. Rui Marques lembra-nos que vivemos numa espiral negativa, arrastados pelo covid, o extremismo, a crise climática, a depressão coletiva e a degradação das relações humanas. “Sendo seres relacionais – mais ainda que sociais – dependemos da qualidade e robustez das relações que somos capazes de estabelecer. Relações de reconhecimento, de escuta e de cuidado mútuo humanizam-nos. As de ódio, indiferença ou fragmentação diminuem-nos.”, refere o autor. (Vale a pena seguir a sua newsletter “Relacionarte”, a que podem aceder no Linkedin.)

Entrámos num inverno relacional, “no qual vão faltando as relações que nos tornam verdadeiramente humanos”. Um inverno incendiado pela distância e a desconfiança face ao outro – e que fomos aceitando sem perceber. Algo que, como refere Jamil Zaki, do Stanford Social Neuroscience Lab, é muito conveniente para quem quer manter o poder estabelecido e prefere ter uma comunidade que não confia entre si– e que é, por isso, mais fácil de controlar.

Nesta espiral de más energias – que todos sentimos, não tenho dúvida – a academia diz-nos que a empatia, a generosidade e a esperança podem ser um ato de resistência. “Creio que, quando conseguimos resistir a essas forças que tentam separar-nos e, em vez disso, nos centramos no bom que os outros têm, não estamos a mudar quem somos, mas a voltar a quem sempre fomos”, escreve Jamil Zaki. À inteligência artificial, podemos responder com inteligência relacional. Esta, sim, é a nova fronteira do desenvolvimento humano.

Entre o barulho das luzes, da música alta e do exibicionismo, pode haver pequenas pistas que merecem atenção. Foi o que me aconteceu quando ouvi David Lopes falar — e que me levou a querer perceber mais sobre este conceito de inverno relacional. Estamos todos no mesmo barco, mesmo que às vezes nos façam sentir o contrário. Por isso, quis trazer aos leitores desta revista um outro olhar sobre os dias. Se estas palavras vos fizerem ouvir o outro com um pouco mais de presença — ainda que por breves minutos —, as horas que passei a digerir conversas irrelevantes naquele evento terão, afinal, valido a pena.

Ana Rute Silva
Partner Agência Evaristo
anarute@agenciaevaristo.pt

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