#60 ARROZ DE LINGUEIRÃO

#60 ARROZ DE LINGUEIRÃO

Recebi a conta, não foi barato, mas apreciei tanto que se me tivesse pedido o dobro não teria reclamado. Não é sobre o valor, é sobre o significado. São estas experiências memoráveis que fidelizam, que criam laços e é este o segredo das boas estratégias de marketing e comunicação: criar relevância, em todo e qualquer experiência de produto ou serviço.

Aconteceu ficar sem telemóvel na semana de regresso ao trabalho, pós-férias. Ora ligava ora desligava, não dava para contar com ele. O caos. Telefonemas por fazer, por receber, redes sociais por gerir e e-mails por responder. Sim, muitas coisas dão para contornar no computador, mas, logo na semana de regresso… Fui até Lisboa, ter com o nosso gestor de telecomunicações para me ajudar a resolver a situação. Impecável, o Rui. Acabou por se confirmar, tinha mesmo de comprar outro, mas enquanto se passam ou não os dados… passou a manhã inteira.

Chegou a hora de almoçar. O Rui tinha compromissos e aconselhou-me ir à “Casinha”. Estava em Oeiras e tinha uma vaga ideia de já lá ter ido há uns anos e gostado. Fui. Era de facto uma casinha, um dos restaurantes mais pequenos onde já estive. Sentei-me, naquele ambiente familiar de bairro, cheirava maravilhosamente bem… O senhor que estava a atender os pedidos na sala (que me parecia o dono), veio ter comigo. Nem simpático nem antipatico, diria: funcional. Deu-me a ementa, não era barato!

Estava sozinha e sem telemóvel, pensei, não me vou demorar aqui, como só uma entrada e uma sopa. Pedi um queijo fresco e uma sopa do dia, era de alho francês. Ele olhou para mim com um ar incrédulo, juro que quase ouvi: como é que esta vem cá só comer isto?!? Disse: – Queijo fresco, não tenho. Alheira também não. Nem tantas outras entradas que estavam na lista. Pensei, bem lá vou eu para um prato do dia, mais vale. Arrisquei num arroz de lingueirão. Enquanto esperava, sozinha e sem telemóvel, parecia que, de um momento para o outro, a minha audição estava a 200%… Ouvia o grupo de reformados ao meu lado, a trocar piadas e o tema preferido era todas as regras que estavam a quebrar naquela refeição. Estavam a gracejar sobre o vinho bebido, a barriga cheia e a sobremesa que não iam dispensar, que se lixasse a diabetes! À minha frente um avô e um neto numa conversa silenciosa, em que a troca de olhares falava mais alto. Duas sopas, uma para cada um, partilhavam depois uma dose do prato principal, arroz de lingueirão e, apesar das rugas de um e da frescura do outro, dava para perceber a partilha do mesmo sorriso, a calma naquela refeição. Do outro lado, um grupo de quase reformados, a falar sobre o pouco tempo que faltava para a “liberdade dos dias”, sem horários, com reformas confortáveis para pausas daquelas mas mais prolongadas… No canto mais afastado, dois senhores, clientes da casa, que percebi que procuravam ir religiosamente uma vez por semana ou mês (não sei), como se essa fosse a refeição onde se permitem a um devaneio, porque aquela comida fazia lembrar a das avós ou mães, num tempo já passado. Ouvia e via tudo como se estivesse à mesa com cada um deles. Um dos reformados do lado, apercebeu-se desta minha “invasão” involuntária. Por algumas vezes, esboçou um olhar, um sorriso até, como quem me dizia: estou a compreender o que te está a acontecer. Nada me distraia, nada me preocupava. Era uma casinha especial onde o sabor e o tempo também eram servidos como prato principal. Sentia-me divertida ali.

O arroz de lingueirão chegou. Estava desvendado de onde vinha o cheiro incrível que inundou o meu olfato ao chegar. O impulso foi procurar o telemóvel para registar aquela maravilha, só que não! Entre uma e outra garfada a frescura do mar, dos coentros (e eu nem costumo apreciar coentros!). Nunca fui aquela pessoa que tem o prazer de comer, comer era funcional, uma necessidade. Agora não, e aquele arroz de lingueirão foi o melhor que comi até hoje. Tive a melhor das companhias, atenta ao que me rodeava, ali e agora. Estive no momento presente.

Recebi a conta, não foi barato, mas apreciei tanto que se me tivesse pedido o dobro não teria reclamado. A Casinha cumpre o que anuncia com o seu naming: comida maravilhosa que nos faz sentir em casa, numa relação próxima com quem a partilhamos. Não é sobre o valor, é sobre o significado. São estas experiências memoráveis que fidelizam, que criam laços. É este o segredo das boas estratégias de marketing e comunicação: criar relevância, em toda e qualquer experiência de produto/serviço. Não é sobre procurar o impossível, o transcendente é sobre despertar – cá dentro – sensações e momentos únicos: individuais ou coletivos. É sobre recuperar o que valorizamos e com o que nos identificamos, nas coisas mais simples.

O senhor que estava a servir à mesa, o tal que não era simpático nem antipático, apresentou a conta e, desta vez, olhou-me nos olhos, parecia curioso. Eu não hesitei e afirmei: ainda bem que não havia queijo fresco, alheira etc e tal… Ele disse: bem me queria parecer menina! E sorriu.

Gisela Pires
Partner Agência Evaristo
gisela@agenciaevaristo.pt

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